O filme 2001: uma odisséia no espaço
- 1968 -, de Stanley Kubrick, serve de metáfora para exemplificar um
suposto início de fabricação da realidade, da cultura e da linguagem. Os 15
minutos iniciais são triunfais. Chipanzés, após tocarem em um algo estranho (um
monólito negro), passam a ter capacidade de transformar coisas (sem sentido) em objetos (ao atribuir sentido e dar uma
função). Passam a atribuir sentido. É a metáfora do início da construção de
sentido, que se instaura quando algo (coisa) passa a ter visibilidade e a ser
operacionalizado. Movimentado. Utilizado. Quando adquire uma função. Na
semiótica, esta função pode ser entendida como a passagem de uma coisa para
condição de objeto. Objeto de um saber, mesmo que no início mítico não se possa
ainda falar de saber, mas o exemplo tem a função de mostrar que em algum
momento do passado, a cultura se despertou. Em algum momento, a vida
transcendeu para além da natureza. Momento de constituição de uma proto-realidade,
fazendo com que a invenção dos objetos, ao mesmo tempo, pareça fazer parte da
natureza das coisas.
No filme, um fêmur sai da
condição de coisa (sem sentido, sem função) e passa a ser revestido por uma
função (invenção/fabricação) que se delineia na imanência à experiência
ilustrada no filme. Aquela coisa (osso) é diferenciada. Não é simplesmente um
osso no meio de uma ossada (MAYRA, 2003, p. 19). Ele resiste a fortes batidas e
passa a ser visto para além dele. A coisa,
na relação, adquire uma função própria. Essa função é um processo de
diferenciação pelo qual um fenômeno passa a se descortinar. O objeto passa a
ser extensão de uma ação.
O momento central do filme é
quando um chipanzé lança para o alto o fêmur e a cena condensa a passagem para
uma nave espacial. Assim como o fêmur representou no filme o momento de origem
de uma linguagem (enquanto transcendência da natureza), de algo que passa a ter
sentido, o cérebro da nave espacial - o computador HAL 9000 - era, numa linha progressiva,
o que no futuro se teria de mais evoluído. Ou, passando para a ordem discursiva
deste texto, o HAL 9000 era o que havia de maior valor simbólico da atualidade
ficcional do filme. Passados 4 milhões de anos desde a “aurora do homem”, o
misterioso monólito continua, na narrativa fílmica, a emitir sinais. No
entanto, esse desconhecido pode ser entendido como uma tentativa de compreender
o Real (existente, apenas, enquanto constructo teórico) pelo qual
movimenta a realidade. Desconhecido, que insiste a desafiar o império da
linguagem, pelo qual, tudo se faz ver a luz de significados. E, é na linguagem
que os sentidos são regulados, controlados, manipulados, fetichizados,
ideologizados.
A metáfora do filme serve para
mostrar que, numa escala crescente, hoje vivemos num mundo que parece ser totalmente
semiotizável. O que não é regulados pelos significados? Vivemos no império da
realidade/imaginário (na medida que a realidade parente funciona
imaginariamente como sinônimo de real, o que naturaliza a linguagem às coisas).
Realidade (ou linguagem) que produz, ao mesmo tempo, o apagamento do Real. Mas
de que Real? O Real, tanto na semiótica quanto na clínica lacaniana, é a
existência na ausência de significado. Seria a coisa (aquilo que estava diante
do chipanzé antes de ter uma função, de ter um sentido). A partir do momento em
que algo passa a fazer sentido, ele torna-se objeto de uma saber. Esse saber é
uma linguagem que se estende sobre o Real, produzindo, ao mesmo tempo, a sua
ausência.
Em uma das referências de Peirce, o Real pode ser entendido como “aquilo
que não é e que eventualmente pensamos dele, mas não é afetado por aquilo que
possamos pensar dele” (2003, p. 319). Independente de como se pode produzir
significado sobre algo, este significado não afetará aquilo pelo qual a linguagem
faz referência, mas sim a forma de interação.
Essa formulação sobre o Real
leva-nos, a princípio, a um problema? Não é o objeto que fala o que ele é - ou
quem ele é (questão ontológica) -, mas uma linguagem. E, uma linguagem numa
mente que, por fim, diz o que ele é e quem ele é. Mas do que isso, produz o
sentido sobre o objeto, mas é também o sujeito da linguagem que formula um
sentido que já havia sido apreendido por ele, de tal forma que o próprio
sujeito se constitui enquanto objeto de sua aparente discursividade. Função de
fabricação da realidade, que difere do Real.
Significar é, sempre, simbolizar, atribuir um sentido, ter domínio de
algo. Podemos, então, dizer que a linguagem nos faz ver o que, outrora, não
viríamos. Essa lógica nos indica que se tornar sujeito é se inserir numa linguagem.
É tornar-se objeto de um saber e constituir-se num saber que torne também o
outro um objeto de seu saber.
O campo da comunicação midiática é, por excelência, o caminho para fazer
ver e interpretar os significados das mais diferentes realidades dando-lhes um
sentido bem regulado. Controlado. Manipulado. Direcionado. Neste entendimento,
o lugar da comunicação é constitui num campo de força. Uma constante luta para
instituir um saber mais verdadeiro. Sua eficácia pode ser mais bem representada
nas formas-imagens que estão ocupando cada vez mais espaços na mídia.
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GOMES, M. R. Poder no
jornalismo: Discorrer, Disciplinar, Controlar. São Paulo: Hacker;
Edusp, 2003.
PEIRCE, C. S. Semiótica. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.

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